Crescimento foi de 22,12% nas vendas de suco no mercado interno

Ciência coloca o Nordeste no circuito de produção de suco de uva de qualidade

Principal diferencial dessas cultivares para o sul do País é a ampliação do tempo de colheita


Foto: Viviane Zanella

Desenvolvidas pela Embrapa Uva e Vinho (RS), cultivares de uva voltadas à elaboração de sucos posicionaram o Vale do São Francisco, em pleno sertão nordestino, como polo produtor da fruta para bebidas de alta qualidade, ao lado da Serra Gaúcha. Grandes empresas do setor alimentício lançaram marcas que usam a origem das uvas como diferencial de valor de seus produtos.

A Coca-Cola do Brasil lançou recentemente o suco 100% Origens Nordeste, linha premium da Del Valle que utiliza como matéria-prima as cultivares Isabel PrecoceBRS Magna, ambas obtidas pelo Programa de Melhoramento Genético Uvas do Brasil, da Embrapa.

Outra gigante do setor, a Miolo Wine Group, utiliza cultivares da Embrapa na elaboração do suco com a marca Sunny Days. Empresas menores, como a Asa Alimentos e a Paluma, mantêm a produção de sucos de uva de qualidade todos os dias do ano graças às cultivares brasileiras adaptadas às condições do Vale do São Francisco. Cada empresa desenvolveu um blend próprio tendo como base as uvas BRS, sigla que designa produtos gerados pela Embrapa.

Conquista recente - Há pouco mais de seis anos, a elaboração de suco não era um negócio viável na região. Mesmo com as condições favoráveis de solo e clima, que possibilitam a colheita de uvas ao longo de todo o ano, o Vale do São Francisco necessitava de cultivares que apresentassem alta produtividade e qualidade, demanda dos produtores e de técnicos da região.

"As tentativas de elaborar sucos no Nordeste já são antigas. Inicialmente tinham uma cor muito amarronzada, que não chamava a atenção do consumidor", relembra João Dimas Garcia Maia, melhorista da Embrapa que, em conjunto com a pesquisadora Patrícia Ritschel, coordena o programa de melhoramento Uvas do Brasil. Ele comenta que mesmo com a disponibilidade de sucos brancos e rosés, a tradicional versão tinta continua sendo a preferida do consumidor, por causa da cor, do aroma e do sabor.

Ele conta que, para atender à demanda dos produtores, desde 1985, o programa tem uma linha de pesquisa dedicada a aprimorar a qualidade e oferecer maior competitividade ao suco de uva brasileiro, tanto nos polos tradicionais, como o Sul do País, como nas novas fronteiras: as regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. "Desenvolvemos cultivares adaptadas ao clima e ao solo brasileiro, isso faz a diferença no produto final", destaca o pesquisador.

Fazenda muda foco de produção - As uvas que estão sendo utilizadas no suco da Dell Valle são cultivadas na Fazenda Timbaúba, ligada à Queiroz Galvão Alimentos, em Petrolina (PE). Segundo Sérgio Lima Cavalcanti, diretor do grupo que há 25 anos atua na empresa, a elaboração do suco surgiu como parte de uma reestruturação há cerca de seis anos, quando a exportação de frutas, que era o principal ramo de atuação, deixou de ser um bom negócio pelo aumento no custo da produção.

Após uma análise de mercado, a escolha foi a implantação de uma agroindústria para processamento de frutas, entre elas a uva. "Na época, testamos cerca de 20 cultivares de uva para ver quais apresentavam o melhor desempenho. Ajudamos a validar a seleção 33, que depois foi lançada como BRS Magna", relembra. Hoje em dia, ao lado da Isabel Precoce, também uma cultivar lançada pela Embrapa, ela lidera a produção de uva para suco na propriedade, totalizando 150 hectares cada.

"A BRS Magna tem boa produtividade, podendo chegar a 60 toneladas anuais por hectare, divididas em duas safras", ressalta Lima. Na propriedade também estão sendo avaliadas outras cultivares da Embrapa, como a BRS VioletaBRS Cora e BRS Carmem. Além de elaborar cerca de 200 mil litros de suco integral (marca OQ) por mês, a fazenda fornece a matéria-prima para a Dell Valle Origens Nordeste e outros produtos.

Mercado promissor - Segundo dados do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), nos últimos dez anos houve aumento de 372% nas vendas de suco de uva no Brasil. Responsável por 90% do abastecimento nacional da bebida, o Rio Grande do Sul elaborou 125,4 milhões de litros de sucos prontos para consumo e 31 milhões de quilos de suco concentrado na safra 2017/2018. Os 10% restantes estão sendo elaborados nos estados de Santa Catarina, Mato Grosso, Bahia, Paraná, São Paulo e Pernambuco.

Na avaliação do presidente do Ibravin, Oscar Ló, o suco de uva vem se consolidando como um dos carros-chefe do setor vitivinícola brasileiro, especialmente por fazer bem à saúde, não ter contraindicações e agradar a todos os públicos, de crianças a idosos. Ele destaca que nos últimos seis anos o produto absorveu metade da matéria-prima cultivada no Rio Grande do Sul. "Num período de recessão econômica obtivemos, de janeiro a outubro de 2018, um crescimento de 22,12% nas vendas de suco no mercado interno, em comparação a igual período do ano anterior. Além disso, promover o suco de uva 100% é estimular o consumo de uma bebida saudável, que pode ser consumida por toda a família", completa ele, ao se referir às ações de valorização do produto, realizadas pelo Instituto, por meio do Projeto 100% Suco de uva do Brasil.

* Viviane Zanella - Embrapa Uva e Vinho  -  Contatos para a imprensa - Telefone: (54) 3455-8084

Mais informações sobre o tema - Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC) - www.embrapa.br/fale-conosco/sac/

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